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Inácio Rebelo de Andrade

Inácio Rebelo de Andrade

inacio andradeInácio Rebelo de Andrade nasceu no Huambo, a 25 de Setembro de 1935. É licenciado em Agronomia pela Universidade de Luanda, doutorado em Engenharia Agronómica pela Universidade Técnica de Lisboa e Agregado em Difusão em Inovações Agrícolas e Extensão Rural pela Universidade de Évora. Iniciou sua actividade docente na Universidade de Luanda. Exerceu o magistério em diversas universidades de Angola, Portugal e do Brasil. Actualmente é Professor Catedrático Aposentado da Universidade Lusófona. Na década de 1960, esteve muito ligado aos movimentos literários angolanos, fundando com o poeta Ernesto Lara Filho a "Colecção Bailundo".

É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Portuguesa de Escritores. De entre as suas várias obras podem destacar-se as seguintes: A Mulata do Engenheiro (2007); Quando o Huambo era Nova Lisboa (1998); Pendor, (1994); O Sabor Doce das Nêsperas Amargas (1997); Parábolas em Português (1999); Aconteceu em Agosto (2000);
Mãe Loba (2001); Revisitações no Exílio (2001); Passageiro sem Bilhete (2003); Na Babugem do Êxodo (2005); Acções no Exílio (2001).

 

Excerto de “O cacimbo e a estação das chuvas”


 


Todos os anos era assim: o Cacimbo chegava em Maio e ia até ao fim de Agosto. Eram quatro meses e meio que não deixavam saudades, porque tudo o que tinha vida (as pessoas, os animais e as plantas) parecia ficar suspenso, como que à espera de recomeçar.
A mil e setecentos metros de altitude, Nova Lisboa evidenciava especialmente os efeitos desse período: as madrugadas frias de enregelar os ossos, o céu limpo de nuvens, o ar seco que soprava por todo o lado.
Junho era o mês pior. Do solo nu que abundava ainda por muitos sítios, a poeira subia e tomava conta das ruas, entrava em casa pelas frinchas das portas e das janelas, deixava a sua marca nas superfícies dos móveis.
Quem viera do Minho ou do Algarve, de Trás-os-Montes ou do Alentejo, dizia que o Inverno tinha chegado. Mas à parte as madrugadas frias, a comparação devia-se apenas à saudade trazida da terra natal, porque a limpeza do céu, a secura do ar, a poeira que subia do solo e tomava conta das ruas não aconteciam de facto em Portugal naquela estação.
Depois de Junho, Julho; depois de Julho, Agosto; depois de Agosto, Setembro.
Em Setembro, o tempo mudava: as madrugadas não eram mais frias, o ar não era mais seco, o céu cobria-se de nuvens densas e cinzentas, a poeira assentava. Cada dia mais elevada, a temperatura subia, até que numa manhã (ou numa tarde, ou numa noite), quase de repente, de um minuto para o outro, relâmpagos aos ziguezagues e trovões ribombantes traziam consigo a primeira chuva.
A água caía em bátega, como que despejada lá de cima de um alguidar imenso: alagava tudo (os quintais, os jardins, as ruas, os passeios); a caminho das valetas, avançava em cachão, veloz e rumorosa. Envolta em espuma, arrastava no percurso o lixo depositado.
Outra vez de repente, também de um minuto para o outro, a chuva parava: tão depressa vinha, tão depressa ia.
Mas depois... Ah!, mas depois..., depois deixava no ar um cheiro a terra húmida, que entrava nas narinas e despertava nas pessoas lembranças adormecidas; um cheiro que se sentia uma vez e não se esquecia mais; um cheiro forte, bom, promissor, de reinício; um cheiro de capim verde quase a brotar.
Para além dos limites da cidade, lá para os lados da Sacaála, do Cambiote ou da Quissala, à beira da estrada, esse cheiro mandava as mulheres espalmar os filhos nas costas, pegar nos cabos em V do etemo, dobrar os rins na lavra horas a fio, armar as bipangas e semear o milho.
Depois de Setembro, Outubro; depois de Outubro, Novembro; depois de Novembro, os meses seguintes até Abril.
Depois de Abril, Maio: o Cacimbo estava aí outra vez.
Depois Junho, Julho, Agosto e Setembro: a chuva de novo, o cheiro a terra húmida (tão forte, tão bom, tão promissor, tão de reinício como no ano anterior), o cheiro de capim verde quase a brotar.

 

[O Senhor Daniel deve ser mais explícito no comentário que faz, de modo a poder receber a resposta conveniente.
Cordiais cumprimentos
Inácio Rebelo de Andrade

Este senhor é um pouco inexacto acerca do juízo que faz da colonização portuguesa de Angola.

Acompanho de perto o percurso literário deste autor e sei bem quanto ele ama a terra que foi obrigado a deixar. Cheia de angolanidade, a sua prosa é de um rigor e perfeição difíceis de igualar.
Maria Villanova