Kandjila é o pseudónimo de Eurico Josué Ngunga, nascido no Katchiungu, Província do Huambo em 1973. Fez o ensino primário em algumas vilas dessa província, porquanto o pai, professor, era enviado para o interior da mesma a fim de abrir escolas de ensino de base.
Licenciou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais-Belo Horizonte-Brasil; estudou Teologia pela Baptist Weastern University-EUA; especializou-se em Mídia, Literatura e Arte, pela Universidade Veiga de Almeida - Rio de Janeiro. Actualmente, finaliza a sua Tese de Mestrado Académico em Administração pelo Instituto Novos Horizontes de Ensino Superior e Pesquisa.
Kandjila vive actualmente no Brasil onde é professor Universitário, leccionando na Faculdade de Tecnologia INED, Belo Horizonte, Brasil. Contratado pelo Ministério da Educação no Governo Lula, trabalha como Formador de professores e gestores escolares da Rede Pública brasileira.
Escreveu, em co-autoria, o livro "Orientações e acções da Educação das Relações Étnico-Raciais."
Sua mais recente obra literária é "Njango - Contos em Volta da Fogueira", publicada no Brasil, e comercializada em diversos países, nomeadamente, Brasil, Portugal, Angola e Estados Unidos da América.
Njango, a primeira obra literária de Kandjia e, de igual modo, a sua estreia no mundo da literatura criativa, é a tentativa, feliz, de a partir da oralidade e da tradições dos ovimbunudu, encaminhar-se para o texto literário, neste caso, a prosa. A obra apresenta-se, assim, como uma metáfora, visível do titulo "Njango- Contos em volta da fogueira". Note-se que o Onjango, é uma instituição ovimbundu onde os mais velhos transmitem, à volta da fogueira, aos mais novos, conhecimentos históricos, éticos, sociais e, inclusivamente, ecológicos. Kandjila pretende assim e, com esta obra, resgatar os valores culturais do seu grupo e, com a sua prosa acutilante, fazer passá-la às futuras gerações convicto do facto de ser ali onde passa, necessariamente, a nossa identidade como angolanos e africanos.
Excerto
As artes do velho Tchimbili criavam grande temor em toda a região de Cuima. Trancava-se em sua cubata de pau-a-pique e entrelaçava-se em recriar imagens exóticas dos tchinganji, das serpentes, das jibóias e dos séculos de antigamente.
Os tchinganji são muito temidos. Têm o poder de manter a ordem da arte tradicional da dança e da música. Pulavam a altitudes gigantescas com suas roupas de zinco sem mostrar o rosto humano. Ostentavam um mistério milenar, assustador e temeroso. Andavam pelos caminhos obscuros das matas, com catanas afiadas, pulando e cantando com vozes e sons guturais. Uma destreza inigualável.
A máscara que encobria o rosto tinha um formato transcendental e vil, e quem tivesse coragem de fitar os olhos naquilo era considerado cúmplice de suas práticas de bruxaria e magia. Alegravam a comunidade com suas piruetas malabáricas no chão empoeirado de barro vermelho da aldeia, com seus chicotes de sisal estalantes e ruidosos.
Nunca se podia ver a feição desses seres humanos incomuns. Quando e como morrem, ninguém sabe. É um mistério! Só os velhos o sabem.
A casa do velho Tchimbili estava cheia de imagens incomuns e assustadoras.
- É um feiticeiro! - exclamou Matende, assoberbado...
- Por quê? - indagou Alende.
- Não vês que o homem desenha a cara do tchinganji e da serpente mortal?
- Foi ele que mandou aquela cobra nas lavras de massambala, para morder a mamã Melita Nalussati!
- É castigo de toda mulher que não ouve os conselhos dos homens velhos e das mamãs anciãs.
- Não é verdade! - respondeu Alende, contrariando o pensamento machista do companheiro.
- As serpentes não têm nada de maldade na sua essência!
- Nem as mulheres! - esbravejava Alende, como se as palavras dele surgissem de uma imensurável labareda.
- As mulheres são benditas. Os homens é que não gostam de ouvir as mulheres! Não sabes que as mulheres é que nos fazem ver o sol, a lua, as águas? São elas que nos fazem ver o que é bom através da natividade pura. Se não fossem as mulheres, nunca saberíamos de onde viemos e para onde iremos. São a vida do mundo. São elas que nos dão forças para viver e trabalhar. O avô Kuamanga já disse no Njango que o prazer da vida se resume na existência das mulheres que têm a missão de cultivar a fertilidade e garantir a prole e a nossa espécie para sempre. São como a rainha Njinga Nbandi, do Ndongo, que parece a Deusa de todos os homens que precisam de horizontes na vida!
As mulheres devem ser exaltadas, como nesta canção do velho Soba:
A luz de Nginga
Olho p´ra mana ginga
Mana Nginga nasceu! Ontem.
Ontem era noite. Alguém deu à mana Nginga luz!
Alguém chorou: éh! Éh! Mana Nginga nasceu! Ontem.
Vai sofrer.
Olho p´ra mana Nginga
Mana Nginga nasceu! Ontem.
Vai chover no pano do peito e do rosto de alguém.
Alguém chorou: éh!éh! Mana Nginga nasceu! Ontem.
Vai sofrer.
Olho p´ra mana Nginga
Alguém deu à mana Nginga luz da dor...
Luz da dor do amor de alguém,
Luz da dor da alegria de alguém
Luz da dor do canto e da dança de alguém
Luz da dor da paz de alguém
Luz para salvar! Alguém.
Olho p´ra mana Nginga
Mana Nginga nasceu! Ontem.
Veio ao mundo para sofrer.
Alguém chorou: éh! Éh "soma yetu" - nossa rainha.
Vai sofrer.
O soba disse: é deusa; é guerreira; vai lutar por alguém - povo do
Mundo!
Matende prostrou-se ao ouvir as sábias palavras do amigo Alende neste poema sonoro:
- É coisa de negro!
- É coisa de gente!
- Sábio, este velho!
Excerto - CHIPENDA - Sonhos, Lutas e Liberdade
O professor Chipenda nunca havia pensado nas agruras do porvir!
Quem poderia dizer para o bendito africano que, nascido nas terras mais remotas do interior de Angola, em Nova Lisboa, numa das ribeirinhas Vilas da Missão do Kuando, algures, sua vida passaria por furacões desalegres desalegrados e alegres alegrados ou até mesmo catástrofes desumanas?
Como todo ser humano, à sua família e habitantes da Vila fora-lhes prometida uma terra cananéia onde tudo manaria com sobejos e abastanças.
Nas gélidas manhãs, as mensagens de boa esperança, volti’meia, invadiam, de dentro do prelado sacerdotal, as consciências das pessoas:
DEIXAI-OS SER
“Um dia, o nosso povo terá a sua própria terra
Uma terra com pão e água abundante
Uma terra de favos de mel
Todos verão a glória do amor divinal estampada nos corações
E nos rostos das pessoas de bem.
A paz cercará a mente das pessoas
Subiremos aos montes
E diremos aos espíritos malignos:
Deixem o meu povo entrar
Deixem o meu povo governar
Deixem o meu povo pensar
Deixem o meu povo falar
Deixem o meu povo sonhar
Deixem o meu povo ensinar as verdades verdadeiras de África
Deixem o meu povo ser livre
Deixem o meu povo falar nas línguas Bantus dos velhos andantes
Deixem o meu povo falar nas línguas Iorubas dos mais velhos
Deixem o meu povo tocar a música das entranhas
Deixem o meu povo conversar nas noites de luar
Nas línguas estelares incandescentes.
Deixem as mulheres na sua essência serem elas mesmas
Nas suas natividades que lhes é devida.
Deixem que os amores ferozes aconteçam nas savanas
Como o rugido dos felinos no cio
E as águas cristalinas lavem os seus suores de paixão natural dos humanos
De bem.
Deixem o meu povo ser livre
Deixem o meu povo falar nas línguas Bantus dos velhos andantes
Deixem o meu povo falar nas línguas Iorubas e suahílis dos mais velhos
Deixem o meu povo tocar a música das entranhas
Deixem o meu povo conversar nas noites de luar, Njango
Nas línguas das estrelas incandescentes.
Deixem o povo ser!
Deixem os povos das Áfricas!
Deixem-nos ser humanidade.
Deixai-nos ir.
Não deixava de ser um canto em favor do cativo camponês da antiguidade vencido por forças mais aguerridas e melhor organizadas dos colonos, que fora vendido como escravo e fez a fortuna das Américas e algures pelo mundo. Os lucros deste tráfico sangrento facilitaram a revolução industrial acirrando assim a grande desigualdade social e cultural entre os que promoveram tal desenvolvimento em detrimento dos outros que foram deixados ao relento da submissão mais profunda da humanidade.
É o sonho dos que sempre pensaram em galgar pontos de grande destaque nas entranhas de suas próprias existências naturais, com os seus rituais culturais e que foram relegados aos esquecimentos forçados, tidos como detentores de uma amnésia natural e cultural.
Como qualquer homem, tinham as mais profundas aspirações humanas. Jamais se deixariam levar pelos infortúnios oferecidos pela própria vida. Cantavam e dançavam. Pulavam ao som do batuque pele de búfalo. Vociferavam e rugiam como leões famintos. Mas jamais se deixariam perder nos escombros das savanas tenebrosas da vida. Quando cantavam, até os bichos urravam distantes. As montanhas do planalto faziam o escoadouro das águas cristalinas que de cima caiam das chuvas, dando o alívio da vida que todos os homens de bem logravam. O calvário deixava de existir quando esses momentos de glória se faziam encher nas comemorações. As celebrações de agradecimento enchiam de esplendor as casas e vivendas das vilas vizinhas e ribeirinhas do Kuando.
Outros Escritores
Recessões criticas e comentários das obras nos seguintes links:
http://www.gostodeler.com.br/materia/3973/Njango:_contos_.html
http://liberal.sapo.cv/noticia.asp?idEdicao=64&id=19967&idSeccao=518&Action=noticia
http://cidinhadasilva.blogspot.com/2007/11/lanamentos-de-autores-angolanos-em-belo.html
Mister Wong
Digg
Del.icio.us
Slashdot
Furl
Yahoo
Technorati
Newsvine
Googlize this
Blinklist
Facebook
Wikio





